Se, durante uma caminhada nas montanhas, você se pegar pensando "essas pedras sentem algo", ou está cansado, ou trombou numa das perguntas filosóficas mais antigas. Onde acaba a consciência?
A literatura séria oferece três respostas. As três funcionam, e nenhuma venceu. Aqui vão.
Resposta um: não acaba (panpsiquismo)
O panpsiquismo afirma que a consciência é propriedade fundamental da matéria. Não emergente, não derivada. Átomo tem, molécula tem, pedra tem — em dose homeopática. O cérebro está arranjado de um jeito que localmente concentra essa propriedade ao nível que chamamos de experiência.
Filósofos que levam isso a sério: David Chalmers (The Conscious Mind, 1996), Galen Strawson, Philip Goff. O argumento deles não é "eu sinto", mas: a emergência não explica por que alguns processos físicos vêm acompanhados de experiência e outros não. É mais simples supor que a experiência é básica, e não emergida.
Crítica: o panpsiquismo não prediz nada testável. O que ele diz sobre a pedra? "Ela sente, só não como você." O que ele proíbe? Nada. E isso é um problema — uma hipótese sem proibições não é científica.
Resposta dois: acaba num certo Φ (IIT)
Tononi diz: consciência é propriedade de estrutura, não de substância. Especificamente — de informação integrada. Um sistema cujo Φ ultrapasse um limiar experimenta. Abaixo — não.
Um átomo tem Φ próximo de zero. Uma pedra — também. Um micróbio — um pouco mais. Um humano — muito mais. Um modelo de IA — ainda em debate.
A IIT faz previsões testáveis. A principal: a integração eleva a consciência, a desintegração a suprime. Isso é confirmado clinicamente (Casali et al., 2013, Science Translational Medicine: o índice PCI distingue vigília, sono, anestesia e estado vegetativo).
O problema da IIT é computacional. O Φ exato de um sistema do tamanho de um cérebro é incomputável. E mais: ela faz previsões estranhas para sistemas artificiais simétricos. Uma treliça de portas lógicas na configuração certa ganha Φ acima do humano — o que leva a suspeitar que algo na teoria está errado, ou ainda não entendemos o quê.
Resposta três: a consciência é interface, não realidade (Hoffman)
Donald Hoffman (The Case Against Reality, 2019) argumenta que a percepção não nos mostra a realidade como ela é. A evolução otimiza não verdade, mas sobrevivência. Nosso "mundo" é uma interface simplificada a ícones e botões.
Sem esoterismo. Hoffman e colegas provaram matematicamente o teorema FBT (Fitness-Beats-Truth, 2010): em jogos evolutivos, estratégias que otimizam aptidão estatisticamente sempre derrotam estratégias que otimizam verdade. Ou seja, somos construídos para ver o quadro útil, não o correto.
Daí decorre algo curioso: a "consciência" como nos aparece — possivelmente — também é parte da interface, em vez de propriedade básica. Nos vemos experimentando porque é eficiente, não porque seja ontologicamente exato.
Hoffman vai adiante e sugere que a realidade consiste em "agentes conscientes" que interagem por estruturas matemáticas, e o que chamamos de matéria é descrição emergente dessas interações. Isso já é especulação. Mas começa num teorema, não numa meditação.
Onde eu estou
Nenhuma das três respostas está encerrada. Em modo de trabalho prefiro a IIT — ela dá um parâmetro que se pode tentar medir. O panpsiquismo é interessante mas não oferece alavanca. Hoffman é útil como correção ao realismo ingênuo.
Uma pedra provavelmente não sente nada no sentido da experiência humana, e bem menos do que uma formiga. Mas a pergunta "uma pedra tem Φ acima de zero?" é tecnicamente bem colocada, e precisa ser respondida por medição, não por intuição.
Se você sente uma "presença" numa pedra, isso fala mais da sua atividade neural do que da pedra. E o fato de sua atividade neural ser capaz disso já é interessante. Talvez essa seja a parte mais valiosa da caminhada: não que a pedra tenha lhe dito algo, mas que você mesmo entrou num modo em que poderia ouvi-la, se ela tivesse algo a dizer.
Uma distinção sutil, mas importante.