Quando me perguntam o que é a Cosmologia Neural, a resposta curta é esta: o nome de trabalho de um modelo em que cinco anomalias independentes da ciência atual se encaixam sem contradição.
A resposta longa é um livro. A resposta de tamanho médio cabe numa página.
Cinco rachaduras, uma estrutura
Há cinco fatos de cinco ciências diferentes, e cada ciência tem a sua explicação pronta para o seu fato, mas os fatos se encaixam uns nos outros como se tivessem sido recortados do mesmo mosaico.
Estrutura. Vazza e Feletti (2020): por vários indicadores estatísticos, a teia cósmica e a rede neural do cérebro são quase indistinguíveis, embora seus tamanhos difiram em vinte e sete ordens de grandeza.
Informação. Landauer (1961) e o experimento de 2012: apagar um bit libera um calor mensurável. A informação é física no mesmo sentido em que a energia é.
Forma. Michael Levin (Tufts): as células "sabem" que forma construir, e esse saber está escrito nos genes e, além deles, nos padrões bioelétricos do tecido.
Aprendizado. Vanchurin (arXiv, 2020; PNAS, 2022): o universo é uma rede neural, e sua dinâmica é um processo de aprendizado. Do formalismo decorrem tanto a mecânica quântica quanto a gravidade.
O observador. Tononi: a consciência é uma medida de quão integrado é um sistema. Hoffman: o que vemos é uma interface lapidada para a sobrevivência, e a realidade por trás dela fica fora do nosso alcance.
Cinco rachaduras em cinco campos diferentes, e todas apontam para o mesmo lado: para a informação como fundamento.
O que se chama Cosmologia Neural
A hipótese de trabalho é esta: tome a informação como camada primária, e os fatos acima deixam de ser enigmas de ciências separadas e passam a ser consequências de uma só arquitetura.
Nesse quadro, a matéria é emergente, a gravidade é termodinâmica (Verlinde), a consciência é uma medida de quão integrado é um processo computacional (Tononi), a forma dos seres vivos é um padrão bioelétrico (Levin), e o espaço-tempo é uma estrutura de ligações causais (Krioukov).
A hipótese é técnica e não está presa nem a uma "alma do universo" nem a uma "conexão universal". Troque a camada primária, e cinco enigmas diferentes viram cinco consequências de uma só teoria.
Onde mora a especulação
No livro e no preprint Pointer Architecture, separo as afirmações em três níveis.
Estabelecido: tudo o que foi listado acima, com referências concretas a Vazza e Feletti, Landauer e Bérut, Vanchurin, Tononi e Levin. São dados; a interpretação começa depois.
Preliminar: meu próprio modelo, a Pointer Architecture, um substrato formal construído como código funcional (a linguagem Sixth), com falsificadores escritos de antemão. Há um preprint, e o código é aberto.
Especulação: tudo o que vai além disso: experiência pessoal, implicações filosóficas, "o que isso significa para mim". Não vendo isso como ciência.
A separação importa. Uma Cosmologia Neural do tipo "tudo é um, tudo está ligado" seria um slogan, e slogans não têm valor na ciência.
Aonde isso leva
Se o modelo estiver certo, ao menos em parte, então:
— a matéria escura pode ser uma dimensão que falta na arquitetura de conexões, sem o tipo de massa a que estamos acostumados; — a consciência deixa de ser traço exclusivo do ser humano e passa a ser propriedade de sistemas integrados acima de certa complexidade: animais, redes neurais e talvez planetas diferem no Φ, mas pertencem à mesma categoria; — o "sentido da vida" deixa de ser pergunta filosófica e vira pergunta de engenharia: o que otimiza um processo de informação local, o cérebro, embutido num processo maior?
Soa grandioso, eu sei. Mas soar grandioso não é argumento contra: a teoria da gravitação de Newton também soava grandiosa na sua época. A única pergunta que faz sentido é se a teoria faz previsões testáveis. A Cosmologia Neural já fez algumas; parte delas está sendo testada agora, e o resto espera a sua vez.
Por isso chamo isso de programa. Uma doutrina dispensa testes; um programa não vive sem eles.
