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2 de agosto de 2024·3 min

"Eu sou o universo": o que a frase significa tecnicamente

Se o universo é uma rede neural, o "eu" é um nó dela. A pergunta é de que ele é nó e até onde alcança.

"Eu sou o universo" costuma viver no Instagram como um slogan que não quer dizer nada. Mas na Cosmologia Neural a frase pode ser lida ao pé da letra, e aí, inesperadamente, vira uma afirmação que dá para testar.

Explico o que quero dizer.

O "eu" como nó funcional

Um neurônio numa rede é uma função, sem nenhuma substância especial dentro, e sua tarefa é simples: receber sinais de outros nós, processá-los e passá-los adiante. Se a rede for grande o bastante e as conexões estiverem certas, essa função local passa a participar de um cálculo global que nenhum neurônio faz sozinho.

Se o universo é uma rede neural (Vanchurin, arXiv, 2020; PNAS, 2022), então o "eu" nesse quadro também é uma função: um processador local de informação embutido numa rede maior.

A pergunta "onde fica a minha consciência?" perde então o sentido. A consciência acontece; é um processo ativo, e procurar o lugar dela é tão estranho quanto procurar o lugar de uma corrida.

A largura de banda do meu nó

Um processador local tem características mensuráveis: quanta informação trata por segundo, até onde vão suas conexões, com quais outros nós está sincronizado.

Pelas estimativas mais grosseiras, o cérebro humano faz cerca de 10¹⁵ operações por segundo. Suas conexões chegam sobretudo ao corpo e ao entorno imediato e, por intermediários, a toda a rede social. Ele se sincroniza com outras pessoas pela fala, com a natureza pelo corpo, com as abstrações pela linguagem e pela matemática.

Esse nó é local. Participa do cálculo do universo na medida da sua largura de banda e não consegue "conter" o universo.

Lida assim, a frase "eu sou o universo" quer dizer "eu participo ativamente do seu processo". Uma célula do coração também não é o coração, mas sem ela o coração para.

Três erros populares

Primeiro: "dá para expandir a consciência e virar o universo". A largura de banda de um nó é limitada pela sua física. A percepção pode ser ampliada, mas só dentro do que o cérebro consegue processar. Além disso começa uma introspecção nebulosa, e a "consciência cósmica" fica por conta da imaginação.

Segundo: "a meditação abre acesso a uma mente universal". A meditação de fato muda o funcionamento do cérebro, por exemplo a atividade da rede de modo padrão (Brewer et al., PNAS, 2011). Mas isso é trabalho com o próprio nó, e a rede como um todo não entra na história.

Terceiro: "eu crio a realidade com o pensamento". O pensamento é a saída de um processador local. Ele influencia o que o processador fará em seguida e, por meio disso, o ambiente ao redor, mas sempre dentro da física.

O que realmente decorre daí

Se o "eu" é um nó na rede, a morte é a saída do nó da rede, e a rede continua funcionando. Os dados que o nó processava passam a outros nós (pela fala, pela escrita, pela cultura) ou se perdem. Daí o desejo teimoso das pessoas de deixar alguma coisa: o legado é arquitetônico, um modo de o nó continuar influenciando o cálculo depois de parar.

Se o "eu" é um nó, a ética deixa de ser sermão e vira uma questão de regime de funcionamento. Um nó que mantém a coerência dos vizinhos aumenta o Φ da rede; um nó que faz ruído e quebra a coerência o diminui. "Bem" e "mal", nesse quadro, são regimes que aumentam ou diminuem a integração do sistema.

É a velha ética recontada numa língua nova: Kant outra vez, só que pela teoria dos grafos.

O que aqui é rigoroso e o que não é

Tudo isso é meia especulação. A parte formal (nó, rede, largura de banda) é rigorosa. As interpretações (o que isso significa para a morte, a ética, o legado) são interessantes, mas ainda não têm prova nenhuma.

Trato isso como hipótese de trabalho. A utilidade dela está em tornar o "eu" uma noção operacional, um processo com parâmetros mensuráveis, sem precisar de nenhuma coisa em si.

Se a hipótese estiver errada e o "eu" for outra coisa, isso também será um resultado. Por enquanto, os dados não a refutam.

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