Nasci meio estrangulado e passei os primeiros minutos de vida sem oxigênio. Não me lembro de nada, claro. O que sei sobre a morte clínica em outras circunstâncias vem de algumas dezenas de relatos que li e conferi.
A experiência de quase-morte (EQM) é um daqueles fenômenos em que os adeptos do paranormal e os materialistas cavaram trincheiras há muito tempo e desde então trocam tiros. Quase ninguém nesse campo fala com calma. Vou tentar.
O que de fato se observa
A EQM clássica segue um roteiro: sair do corpo, atravessar um túnel, a luz, o encontro com parentes já mortos, a revisão da vida, a volta. Nem todos passam por isso. Acontece com uma parcela pequena, mas constante, de quem sobrevive a uma parada cardíaca ou a outro contato próximo com a morte: conforme o estudo, de 9% a 18% dos sobreviventes de parada cardíaca relatam alguma forma de EQM (van Lommel, 2001; Parnia et al., 2014).
O fenômeno em si está bem documentado. O problema começa na sua interpretação.
O que diz a neurociência
Hoje se conhecem vários mecanismos neurobiológicos, e cada um explica uma parte da EQM.
— Hipóxia e reperfusão. Sem oxigênio, os neurônios do córtex visual começam a disparar de forma caótica, e por dentro isso aparece como um túnel com luz no fim (Blackmore, 1993).
— DMT e psicodélicos endógenos. Rick Strassman sugeriu que o cérebro, ao morrer, libera o próprio DMT. Em humanos isso não foi confirmado, mas o DMT foi encontrado no cérebro de ratos, e seu nível sobe durante a parada cardíaca (Dean et al., 2019).
— Um surto gama antes da morte. Borjigin e colegas registraram, nos segundos finais, uma breve explosão de ondas gama, primeiro em ratos (PNAS, 2013) e depois em alguns pacientes à beira da morte (PNAS, 2023), mais forte nas regiões ligadas à percepção e à memória. O cérebro se acende uma última vez, com mais brilho do que na vida comum. Talvez esteja aí a origem da "consciência hiperlúcida" que tantos sobreviventes descrevem.
— Intrusão do sono REM. Nelson e colegas (Neurology, 2006) viram que pessoas com EQM têm com mais frequência episódios em que o sono REM invade a vigília. Daí a hipótese de que a EQM seja uma espécie de sonho disparado em condições extremas.
Nenhum mecanismo explica a EQM por inteiro, mas, somados, dão conta da maior parte do que os sobreviventes contam.
O que a neurociência não sabe
É aqui que passa a fronteira.
Os relatos de detalhes precisos da reanimação, vistos como que "de cima" (a literatura os chama de percepções verídicas), são difíceis de estudar com método. Pim van Lommel (Lancet, 2001) reuniu na Holanda uma coorte de 344 pacientes; 18% relataram EQM, alguns com detalhes verificáveis. Mas o estudo AWARE (Parnia et al., 2014), desenhado justamente para testar a percepção "de cima", teve um resultado modesto: dos 101 pacientes entrevistados, só um lembrou um fato que pôde ser conferido de forma independente.
Esse resultado não autoriza chamar as percepções verídicas de mito. Mas sua raridade e a dificuldade de reproduzi-las pedem cautela.
Também continua em aberto a questão das mudanças duradouras de personalidade. Muitos sobreviventes contam que seus valores mudaram, que o medo da morte diminuiu, que a relação com o trabalho se transformou. Isso pode ser testado estatisticamente, e os testes confirmam. Mas há explicação suficiente sem nenhum "contato com outra realidade": é assim que se manifesta o crescimento pós-traumático, a reorganização da personalidade depois de uma experiência extrema.
O que eu penso
Separo minhas conclusões em três graus de confiança.
Estabelecido: a EQM é um fenômeno neurocognitivo real, com fenomenologia característica. Ocorre em 9% a 18% dos sobreviventes de parada cardíaca e muda a personalidade por muito tempo.
Preliminar: parte da fenomenologia (o túnel, a luz, a revisão da vida) se explica por mecanismos neurobiológicos conhecidos. O surto gama terminal é a pista mais promissora para a "consciência hiperlúcida".
Especulação: as percepções verídicas, se de fato existem, podem apontar para algo além do modelo-padrão da consciência. Ou podem ser um artefato da memória, montada depois a partir de fragmentos. Por ora, a única resposta honesta é "não sei".
Na Cosmologia Neural, a EQM é um caso-limite interessante. Se a consciência é processamento de informação num nó local de uma rede maior, o que acontece quando o nó sai da rede? A resposta padrão: o processo para. A fora do padrão: por um breve instante o nó perde o "filtro" e vê o que normalmente está fora do seu alcance.
Qual das duas está certa, não sei. E enquanto esse "não sei" durar, deixo a porta entreaberta. Só entreaberta, para não entrar a corrente de ar do escritório ao lado, onde vendem "contato com espíritos" por 150 dólares.
