Me perguntam com frequência onde tudo isso começou. Passei vinte anos na indústria de IA e, em algum momento, a frase "o universo é uma rede neural" apareceu na minha cabeça. A pergunta é como ela foi parar ali, sendo eu nem neurocientista, nem cosmólogo.
A cronologia curta e honesta é esta.
2017–2019: arquitetura como linguagem
Trabalhei com transformers e mecanismos de atenção desde os primeiros artigos. Trabalhei com sistemas que aprendiam de dados e mostravam propriedades que ninguém havia programado. Em 2019 eu tinha uma intuição estável: arquitetura importa mais que algoritmo. A forma como as conexões estão organizadas determina o que o sistema pode e não pode fazer.
Prática de engenharia, não metafísica. Quem já comparou LSTM e Transformer na mesma tarefa viu isso.
2020: o artigo de Vanchurin
Em setembro de 2020, Vitaly Vanchurin publicou no arXiv um preprint intitulado The World as a Neural Network. Notei. O título soava como manchete de divulgação — o conteúdo acabou sendo um formalismo próprio. Ele mostrava que, numa rede neural grande com dinâmica de aprendizado adequada, em certos limites se deriva a mecânica quântica (limite de aprendizado rápido) e a gravidade (lento).
Seis meses depois, Vanchurin com Katsnelson e Koonin publicaram uma extensão no PNAS. Koonin é biólogo evolutivo conhecido; Katsnelson, físico de matéria condensada. Trabalho sério num periódico sério. Sem franja.
Deu uma sensação estranha: alguém pôs em palavras, formalmente, o que eu sentia como engenheiro mas ainda não sabia dizer como cientista.
2020–2022: cinco rachaduras
Depois disso — acumulação lenta. Comecei a notar que observações relacionadas apareciam em paralelo, em campos diferentes, sem ninguém costurá-las.
— Vazza e Feletti (Frontiers in Physics, 2020) mostraram que a rede neural do cérebro e a teia cósmica são estatisticamente indistinguíveis.
— Bérut e colegas (Nature, 2012, discutido em 2019–2020) confirmaram experimentalmente o princípio de Landauer: a informação tem custo termodinâmico.
— Michael Levin (Tufts) publicou artigo atrás de artigo: as células conhecem a forma antes dos genes, padrões bioelétricos codificam a morfologia, xenobots se auto-organizam a partir de fragmentos de rã em novas formas de vida.
— Tononi afiou a IIT e começou a formalizá-la em casos computacionalmente tratáveis.
— Penrose e Hameroff tiveram novos experimentos mostrando que os microtúbulos sustentam coerência por mais tempo do que se pensava.
Em separado — notícias de cinco periódicos diferentes. Juntas — a mesma afirmação em cinco formas: a informação é a camada primária, matéria e força são emergentes, consciência é propriedade de processos integrados.
2022–2023: tem que ser escrito
Em 2022 senti que essa síntese precisava ser enunciada publicamente em russo — porque em inglês ela vive em fragmentos pelo Twitter acadêmico e por podcasts, e um livro que a reunisse com uma borda honesta de "o que está provado e o que não" ainda não havia sido escrito.
Não sou neurocientista nem cosmólogo. Mas tinha vinte anos de trabalho com sistemas em que "a arquitetura determina o possível", e tinha conversado com pesquisadores dos cinco campos. Uma posição incomum: nem a profundidade de um especialista, nem a largura de um jornalista, mas uma terceira coisa — uma perspectiva de engenharia sobre ciência que ainda não virou ciência.
2023–2025: Pointer Architecture
Enquanto escrevia o livro, minha hipótese de trabalho crescia, e dei um nome: Pointer Architecture. Um modelo informacional-geométrico específico que prevê como as curvas de rotação galáctica devem se comportar se a gravidade é emergente e não fundamental.
Em 2024 montei o preprint, rodei no catálogo SPARC (171 galáxias disco), obtive confirmação parcial com falsificadores pré-registrados concretos. Código e dados públicos.
Longe de uma prova da Neural Cosmology. Uma primeira medição de uma de suas consequências. Mais ou menos como a primeira rodada do LHC foi um instrumento para testar o Modelo Padrão, e não a sua prova.
Onde estou agora
A Neural Cosmology é um quadro de trabalho que é honesto sobre suas bordas, não uma doutrina que eu promovo. Parte está sendo testada, parte é especulação por enquanto, parte é interpretação pessoal. Tento não misturar os três.
Se o quadro estiver certo — temos em mãos o começo de uma nova etapa da ciência. Se estiver errado — temos a primeira tentativa séria de enunciá-lo e testá-lo, o que também é valioso: a comunidade científica ganha uma estrutura concreta contra a qual empurrar enquanto procura a correta.
Qual dos dois desfechos vai se realizar, eu não sei. É essa a razão pela qual continuo.