Novo: a biblioteca online.·Ler agora

← Ensaios
19 de outubro de 2024·3 min

Magia e realidade: onde a ciência concorda e onde discorda

O pensamento mágico é um modelo de trabalho. Às vezes há um mecanismo real por trás dele, às vezes não. Veja como distinguir um caso do outro.

O pensamento mágico é a crença de que um pensamento, uma intenção ou um símbolo podem agir sobre o mundo físico passando por cima das ligações causais comuns. Os antropólogos o estudam desde a década de 1890, e os psicólogos há mais ou menos o mesmo tempo. O veredito cultural curto cabe em três palavras, "arcaico", "infantil", "supersticioso", mas o quadro científico é mais longo e mais complicado.

Vou por partes, em três passos.

Onde o pensamento mágico funciona

O efeito placebo é um processo fisiológico real. Uma metanálise de Hróbjartsson e Gøtzsche (NEJM, 2001) o achou pequeno, mas tratava de desfechos objetivos. Nas experiências subjetivas, como dor, náusea e ansiedade, o placebo age bem mais. O mecanismo foi rastreado: já em 1978 Levine e colegas mostraram que a naloxona anula o alívio de dor causado pelo placebo, e depois Fabrizio Benedetti descreveu em detalhe como a expectativa aciona sistemas específicos de neurotransmissores, entre eles os opioides endógenos e a dopamina.

O sentido é simples: se você acredita que um remédio vai ajudar, o cérebro produz mudanças químicas que de fato ajudam. É bioquímica disparada por um sinal de cima, dos níveis cognitivos superiores. O pensamento mágico serve aqui de interface que leva a pessoa a um mecanismo real, e o mecanismo continua inteiramente material.

Com a oração, a meditação e o ritual acontece o mesmo. A neuroimagem (Newberg e colegas, 2001, e muitos estudos depois) mostra, durante a oração profunda, mudanças mensuráveis no córtex pré-frontal e nas áreas parietais. A rede neural funciona num regime especial, e isso tem consequências fisiológicas: a ansiedade cai, o limiar de dor muda, às vezes a estrutura do cérebro se altera com o tempo. Nada disso exige uma instância externa.

Onde o pensamento mágico engana

O viés de confirmação nos faz lembrar os acertos e esquecer os erros: você desejou e aconteceu, e isso fica na memória; desejou e não aconteceu, e isso se apaga. Daniel Kahneman descreveu isso em detalhe em Rápido e devagar (2011), embora o efeito fosse conhecido muito antes.

O cérebro costura acontecimentos aleatórios em padrões e lhes dá sentido onde não há nenhum. Em termos evolutivos, isso é útil (melhor confundir um arbusto com um tigre do que o contrário), mas no mundo moderno essa tendência não para de produzir falsas "sincronicidades".

O pensamento mágico sobre outras pessoas é mais perigoso. "Pensei mal dele e aconteceu uma desgraça, então a culpa é minha." Ou: "Mandei uma bênção e ele se curou, então sou um milagreiro." As duas fórmulas são armadilhas do ego fantasiadas de espiritualidade. Seus pensamentos só se ligam ao que acontece com outra pessoa por canais físicos: você ligou, disse alguma coisa, fez alguma coisa.

Onde a fronteira fica borrada

A mecânica quântica deu ao pensamento mágico um presente inesperado: a palavra "observador". Há vinte anos os divulgadores repetem o mesmo erro: "se o observador influencia a medição quântica, então minha consciência cria a realidade".

A resposta curta da física é não. Em mecânica quântica, "observador" é um aparelho de medida, e a consciência não tem nada a ver com isso. A decoerência nasce da interação do sistema quântico com o ambiente; Wojciech Zurek mostrou isso em detalhe numa série de trabalhos dos anos 1990 e 2000.

A resposta longa é mais complicada. Penrose e Hameroff sustentam que a coerência quântica dentro do cérebro pode participar do momento da escolha consciente. É uma hipótese, e só uma hipótese: há argumentos recentes a favor dela (por exemplo, um estudo de 2024 na eNeuro em que um fármaco que estabiliza os microtúbulos retardou a perda de consciência de ratos anestesiados), ela não foi aceita e também não foi refutada. Na forma estreita, "processos quânticos nos microtúbulos podem estar ligados à consciência", é uma afirmação testável. Na forma ampla, "a consciência cria a realidade", é um slogan sem sentido físico.

O que eu penso

O pensamento mágico é o precursor do pensamento científico. Ele diz que existe uma ligação oculta entre a intenção e o mundo. A ciência responde que parte dessas ligações é real e passa por mecanismos neuroendócrinos e sociais, parte é ilusão criada por vieses cognitivos e parte é desconhecida e continua em aberto.

A postura sensata é separar: o que exatamente você observa, que mecanismo pode estar por trás e como isso poderia ser testado. Sem o desdém do "superstição" e sem o acréscimo esotérico de "outra realidade".

É mais sem graça do que "o universo está ouvindo". Mas funciona.

pensamento-mágicociênciaplacebo